Brás Cubas
Por muitos e muitos anos, meu livro favorito. Atualmente não sei dizer qual seria. Mas a marca do último capítulo estará sempre lá, como uma cicatriz. Dezoito anos. Já se passaram mais dez. Como eu sempre digo, os dez mais decisivos de todos. Bizarro isso, como uma vida de oitenta, noventa anos sei lá (cem??) pode ser definida em apenas dez. Mas vá lá, é assim para a grande maioria.
Se não estivesse tomada de tamanha anedonia, levantaria e pegaria o livro. Anedonia não, o nome mais apropriado é preguiça mesmo. Mas há o santo google, e eu posso pegar meu trecho facilmente, ao alcance de alguns cliques.
"Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado destas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto [...]. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseqüentemente que sai quite com a vida. E imaginará mal, porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa neste capítulo de negativas: não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria."
E o grande Machado é especialmente grande para mim pois conseguiu escrever a história dos nãos, daquilo que não temos, não tivemos, não teremos, não somos nem nunca seremos. E bizarramente, dentro de tanto negativismo e pessimismo, sempre há uma esperança: a da não maleficência. O princípio máximo da medicina, se aplicando à vida. Para cada um há uma miséria específica e talvez não seja necessariamente o fato de não ter filhos o grande redentor para todos, mas "fica a dica": se não puder ajudar, não atrapalhe.